“Do sangue para o vinho”

Editorial JP, 4 de novembro

“E Deus cansado de tanto pedido, dormiu, sonhando com outra humanidade”. Essa célebre frase num poema de Carlos Drummond de Andrade, bem que caberia aqui. Certamente poderia abrir a reportagem do jornal O Globo sobre a barbárie nos presídios brasileiros. Histórias insanas, porém reais, de canibalismo, ataques com cães, decapitações e estupros coletivos.

Foge-nos, diante dessas aberrações, a condição humana, a consciência de sermos racionais. E pesa, particularmente, a constatação de que até o ano passado era assim no Maranhão. Detentos degolados e decapitados na Penitenciária de Pedrinhas, futebol de horror jogado com cabeças humanas, esquartejamentos e a fama do Estado ultrapassando as fronteiras do país como se fosse aqui uma recriação mais completa do inferno de Dante Alighieri. O inferno terceirizado nas mãos de empresas umbilicalmente ligadas aos donos do poder à época que nenhum outro interesse tinham que não o imediatamente financeiro. Falavam até de fugas terceirizadas, férias e passeios de assassinos, um blecaute administrativo que transformou Pedrinhas num território de sodomias e sadismos desconcertante. Pior é que o governo de então, encabrestado pelas propinas da quadrilha de Alberto Youssef, não tinha autoridade moral para punir ninguém.

Mas as notícias agora são outras. O número de fugas e mortes em Pedrinhas foi reduzido em 77 % em apenas 10 meses, o número de homicídios dolosos no Maranhão caiu 14 % e o crime organizado já não governa o Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Não dispara ordens para satanizar a população incendiando ônibus, espalhando o terror, desafiando o Estado. O governo anterior, talvez que ocupado demais em conferir outros valores, praticamente se deixou sitiar pelo crime organizado.

Como frisou o delegado geral Augusto Barros, em reportagem de “O Imparcial”, os investimentos do governo Flávio Dino em equipamentos, estrutura e aumento do efetivo policial contribuíram para a redução da criminalidade. E o governo pretende dobrar o efetivo da Polícia Militar até 2018. Percebe-se, assim, que o governo caminha para minimizar os anos de terror que vivemos entre 2012 e 2014. Não são soluções fáceis nem imediatas, mas são soluções que começam a acontecer. Há um número cada vez maior de detentos trabalhando em Pedrinhas, outros reconstruindo, remodelando a Penitenciária, o que jamais seria possível no estágio anterior no qual um poder paralelo ao estado dava as ordens na cadeia.

Estamos livres dos códigos de horror e morte. O Jornal Pequeno acentua que houve no Complexo Penitenciário uma mudança “Do sangue para o vinho” Há ali uma fábrica de blocos de concreto e meio fio. Sustentam-se, conforme o secretário de Justiça Murilo Andrade, ações de trabalho e renda nas unidades prisionais, já são mais de 1200 internos trabalhando.

A mudança está acontecendo. Só não vê quem não quer. Até os ingleses já viram.